silêncio também faz caminho
- Clariane Amorim
- 3 de mai.
- 2 min de leitura
Eu sempre tive uma facilidade enorme em escrever, sabe? Pensar em histórias que eu queria contar era quase um hobby. Bastava sair de casa ou ouvir uma música que me atravessasse e pronto, um escrito fresquinho saía do forno.
É engraçado perceber que hoje, pra escrever esse texto, precisei levar o meu corpo para outros lugares. Mais calmos, com mais vento. Como quem reaprende um gesto antigo.
É como se a palavra agora pedisse outra coisa de mim. Menos pressa. Mais presença.

Eu sempre gostei da intensidade. Dessas histórias que atravessam só de ouvir, desses amores que parecem maiores do que a própria vida. E hoje, sem perceber exatamente quando isso mudou, me vejo ficando com o que não faz barulho. Com o que permanece.
Tem algo novo, e muito singelo, em não precisar que tudo seja extremo. Em não confundir movimento com verdade.
Depois de certos encontros, a gente aprende a reconhecer o que pesa antes mesmo de tocar. E talvez seja por isso que o leve, às vezes, cause estranheza. Porque ele não distrai. Ele mostra. Transforma. Concretiza.
Eu já fui muito de estar. De me espalhar pelos outros, pelos lugares, pelos momentos. Hoje tenho ficado mais. Mais perto de mim. Mais dentro do que é meu.
Já gostei de salas cheias, de vozes altas, de tudo acontecendo ao mesmo tempo. Hoje me encontro melhor no intervalo. Numa mesa posta, numa conversa que não precisa correr, num silêncio que não incomoda, num livro de amor, numa pausa dilatada para um café... descafeinado, claro.
Não sei exatamente quando comecei a escolher menos. Só sei que, de algum jeito, tudo ficou mais habitável.
Também já contei demais. Como se tudo precisasse existir do lado de fora. Conversas, escritos dedicados, posts que entregavam tudo. Agora, algumas coisas ficam. Amadurecem em silêncio. Tenho entendido que nem tudo precisa ser dito para ser verdade.
E, olhando com mais calma, percebo que nada do que foi deixou de fazer sentido. A pessoa que fui, que amava tudo isso de antes, talvez só tenha deixado de ser casa.
E hoje, sem grandes anúncios, sem viradas bruscas, eu sigo. Um pouco mais quieta, talvez. Mas inteira.
Existe uma paz muito discreta, sutil, bonita nisso tudo. Quase como se, pela primeira vez, eu não precisasse explicar.
Tenho gostado muito disso.
Acho que no meio desse silêncio todo, eu começo a entender: nem todo caminho faz barulho.
Alguns, só fazem sentido.



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