outras formas de morar / as coisas continuaram acontecendo
- Clariane Amorim
- há 1 dia
- 3 min de leitura
Tem uma coisa curiosa sobre escrever.
Durante muito tempo, eu achei que a escrita fosse consequência de uma vida bonita. Pensava que, quando eu passava semanas sem conseguir escrever, era porque alguma coisa dentro de mim também tinha parado. Como se a criatividade fosse uma espécie de termômetro da felicidade.

Hoje acho engraçado perceber o quanto eu estava enganada.
Desde os meus dezesseis anos, escrever sempre foi o meu jeito de entender a vida. Antes mesmo de saber o que eu sentia, eu já estava tentando transformar aquilo em escrito. Algumas pessoas fazem terapia. Eu escrevia.
Talvez por isso eu tenha escrito tanto sobre alguns amores.
Na época, eu acreditava que escrever era uma forma de permanecer. Como se colocar uma história no papel impedisse que ela terminasse de verdade.
Nunca impediu.
Mas rendeu bons escritos.
Depois de um tempo, as palavras se tornaram raras. E eu confesso, me desesperei um pouco.
Achei que fosse cansaço.
Depois achei que era falta de inspiração.
Mudei de café, comecei a frequentar os superfaturados. Passei a frequentar parques, procurar novas exposições, ouvir músicas diferentes. Pensei que talvez eu só precisasse de um cenário diferente para reencontrar a escrita.
Não era isso.
Também tentei gravar vídeos. Pensei em documentar a vida por pequenos recortes, como quem coleciona provas de que ela continua acontecendo.
Também não deu certo.
E demorou um tempo até que eu entendesse o motivo.
Eu ainda estava vivendo.
Só não estava mais vivendo para contar.
Existe uma diferença enorme entre essas duas coisas, sabe?
Enquanto eu insistia em procurar a escrita, a vida seguia fazendo o que sempre fez.
Acontecendo.
Fiquei noiva.
Até hoje acho estranho escrever essa frase.

Fui pedida em casamento num pôr do sol laranja, rosa e azul, daqueles que parecem exagero de filme de comédia romântica dos anos 2000. Nas montanhas de Minas Gerais.
Depois do pedido, arroz, frango, salada e vinho.
E eu nunca vou esquecer justamente essa simplicidade.
Porque passei tantos anos acreditando que a felicidade seria um grande acontecimento e ela chegou vestida de coisas pequenas.
Uma carta.
Um rapaz apaixonado e ajoelhado.
Um anel belo, singelo.
Uma lareira acesa.
Água quente.
Um céu estrelado.
Uma conversa que parecia não ter hora para acabar.
Veio parecendo vida.
E, quando fui tentar escrever sobre, lembro de pensar, por alguns segundos, na menina de dezesseis anos que começou isso tudo.
Ela passou tanto tempo escrevendo sobre o amor.
Queria poder contar para ela que um dia ele chegaria.
Não exatamente do jeito que ela imaginou.
Mas de um jeito infinitamente mais bonito.
Enquanto isso, outras coisas também aconteciam.
A promoção que não veio.
O "não" que doeu mais do que eu esperava.
O apartamento esperando, quase pronto.
O medo do futuro.
A vontade enorme de começar a decorar a nossa casa.
As perguntas que a vida adulta faz e que ninguém parece saber responder.
Esses dias me peguei pensando uma coisa.
Será que eu parei de escrever ou será que simplesmente comecei a viver uma vida que já não precisava ser narrada o tempo inteiro?
Talvez seja isso.
Porque alguns dos textos continuaram existindo.
Só não vieram parar aqui.
Foram para o meu caderninho preto.
Para o bloco de notas do celular.
Para conversas de madrugada.
Para o silêncio.
A verdade é que eu nunca deixei de escrever.
Só deixei de sentir que precisava transformar toda experiência em palavra.
E acho que isso diz muito sobre quem eu me tornei.
Hoje, olhando para trás, percebo que a escrita continua sendo casa.
Mas ela deixou de ser a única.
Agora também moro em outras coisas.
Num apartamento que ainda espera.
Num pedido de casamento ao pôr do sol.
Num café descafeinado.
Num medo que insiste em existir.
Numa corrida domingo de manhã.
Num amor que já não precisa incendiar tudo para provar que existe.
Talvez crescer seja justamente isso.
Descobrir que a vida continua acontecendo mesmo quando ninguém está escrevendo sobre ela.
E, curiosamente, acho que foi só depois de entender isso que consegui voltar a escrever.
Que bom.
Afinal, é sempre bom voltar pra casa.



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