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antes de dormir eu penso muito

  • Foto do escritor: Clariane Amorim
    Clariane Amorim
  • 9 de fev.
  • 2 min de leitura

Tem noites em que o corpo deita, mas a cabeça não acompanha.


Deito na cama após um dia cheio de vários rounds da vida, assisti meu reality, leio meu livro, tomo meu remédio com um chá e desligo as luzes.


O quarto fica em silêncio, o mundo desacelera, mas por dentro tudo continua em movimento. É sempre antes de dormir que as coisas aparecem com mais força: o excesso de trabalho, as decisões pendentes, o passado que insiste em dar sinais de vida, o futuro que parece grande demais para caber no agora.


Ando cansada. Não só do dia, mas de sustentar tantas versões de mim ao mesmo tempo. A que dá conta, a que produz, a que resolve, a que acolhe, a que cria, a que não falha. O trabalho tem ocupado mais espaço do que deveria e não porque eu queira, mas porque existe uma urgência constante em provar, conquistar, garantir. Garantir o quê, eu ainda não sei direito. Talvez segurança. Talvez descanso no futuro. Talvez a ilusão de que, se eu fizer tudo certo agora, um dia eu vou poder respirar sem culpa.

E nesses momentos, o passado também aparece. Não como saudade explícita, mas como comparação silenciosa. Como aquela pergunta que não se formula inteira, mas pesa: era isso que eu imaginava?

Estou prestes a sair de casa. A dividir uma vida. A construir um lar com um amor e isso é verdadeiramente bonito, real, concreto e presente. Mas, às vezes, me pego encarando o teto e lembrando que, em algum momento, esse sonho tinha outro rosto, outro nome, outra narrativa, um violão que acompanhava. Não dói como antes, mas atravessa. Imagino que crescer seja também sobre isso: aceitar que a vida não cumpre exatamente os roteiros que a gente escreveu com dezoito ou vinte e poucos anos.


Ah, pra além de tudo isso, estou num ponto de decisão profissional. Daqueles que não cabem numa lista de prós e contras. É mais profundo. É sobre quem eu quero ser daqui pra frente. Sobre quanto do meu tempo eu quero vender. Sobre o quanto de mim ainda sobra quando o dia acaba. E talvez seja por isso que o medo do futuro anda tão presente, porque de alguma forma, escolher um caminho significa fechar outros. E eu sempre tive dificuldade em fechar portas sem olhar para trás. Em deixar tudo o que construí.


Às vezes, tudo parece grande demais: o trabalho, a mudança, o amor, as expectativas, a versão adulta da vida. E eu, pequena demais dentro disso tudo. Em outras noites, porém, algo acalma. Uma sensação quase sutil de que, mesmo cansada, mesmo ansiosa, mesmo com medo, eu estou seguindo. Não perfeitamente, mas genuinamente.


Será que a travessia é sobre isso? Aprender a descansar enquanto decide?

Aprender a não se punir por sentir medo diante do novo?

Aprender que algumas noites serão inquietas mesmo?


Tudo está mudando aqui e, mesmo que o caminho não seja exatamente como imaginei, ele ainda é meu.


Talvez eu só precise lembrar disso antes de dormir, certo?


Com amor,

Clari 💫

 
 
 

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