há sonhos que não pedem interpretação
- Clariane Amorim
- 6 de jan.
- 3 min de leitura
Essa noite, sonhei que estava indo para um retiro espiritual. Um lugar simples, não era como o lugar do retiro de antes. Era um lugar de chegada lenta, onde as pessoas vinham para olhar pra dentro e deixar coisas pelo caminho. Eu ia sozinha, consciente de que nesse momento, não precisava de companhia. Ainda assim, em determinado momento, senti vontade de chamar alguém do passado. Não por dúvida, nem por ausência do presente, mas porque havia assuntos antigos que nunca tinham encontrado um espaço seguro para terminar. E naquele lugar, tudo parecia pedir verdade.

Cheguei antes. O espaço era amplo, silencioso, quase suspenso no tempo. Enquanto esperava, observei o entorno como quem tenta se preparar para algo que não sabe exatamente o que é. Depois de um tempo, ela chegou. Veio com suas malas, com o rosto conhecido, com um sorriso que misturava memória e distância. Eu ajudei a tirar as coisas do carro pequeno prata, que já abrigou tantas das nossas histórias. Havia afeto no gesto, mas também um certo desconforto no ar, como quando duas pessoas tentam se encaixar num lugar que já não é o mesmo.
A gente conversava, mas nada fluía de verdade. Tentamos conversar, como quem tenta vestir uma roupa antiga: reconhece o tecido, lembra da sensação, mas percebe que não cabe mais, não naquele momento. Era como se o diálogo existisse mais pela história do que pelo presente. Em algum momento, percebi que a vida atual se aproximava e quando ele chegou, eu soube que precisava ser honesta. Disse que tinha chamado aquela pessoa porque precisava resolver algo. Não para reatar, não para confundir, mas para concluir.
Pedi que ela fosse embora. E isso doeu.

Doeu nela, doeu em mim. O choro veio pesado, cheio de camadas, cheio de tudo que já foi vivido. Mas antes que a dor se tornasse o centro, outra presença apareceu. Alguém do agora dela. E foi impressionante perceber como o rosto mudou. O choro virou emoção. O corpo relaxou. O abraço aconteceu com verdade. Havia amor ali. Um amor possível, atual, real. Me lembrei do dia em que pedi pra espiritualidade entregar isso também pra ela e fiquei genuinamente feliz.
Eu abracei quem foi casa por tanto tempo, quem ainda é casa nas minhas memórias. E naquele abraço, ouvi coisas que não precisavam mais ser respondidas. Ouvi agradecimentos. Ouvi reconhecimento. Ouvi que o que vivemos foi importante, que deixou marcas boas, que ensinou, que transformou. E eu chorei. Chorei porque senti tudo. Mas não consegui dizer nada. Não era falta de palavras, mas sim um excesso de sentimento.
Enquanto isso, olhava para o espaço do retiro. Como se aquele lugar estivesse testemunhando tudo, tantas histórias de começo, meio e fim. Como se ali fosse o único cenário possível para esse tipo de encontro. Ela foi embora com suas malas, no mesmo carro pequeno prata, que já abrigou tantas das nossas histórias. Um carro no qual eu não entrei. E isso, de alguma forma, fez sentido.
Depois, percebi que não tinha abraçado a pessoa que estava com ela agora. E isso ficou ecoando. Não como culpa, mas como consciência tardia. No final do sonho, eu seguia o retiro ao lado de quem caminha comigo hoje. Em paz. Presente. Inteira.
Antes de acordar do sonho, eu mandei uma mensagem. Um pedido simples: que o abraço fosse dado também por mim. E um agradecimento. Pelo que foi. Pelo que ensinou. Pelo o que é agora.

Entendi que o amor não se perde, na verdade, ele se reorganiza. Entendi que algumas histórias não precisam continuar para seguirem vivas dentro da gente. Há vínculos que não se rompem, apenas mudam de forma, de lugar, de função.
Entendi que, mesmo diante a um enorme afastamento e tanta coisa envolvida (amor, raiva, angústia, medo, saudade e vontade), eu precisava deixar o meu amor da minha vida ir.
Acho que alguns encontros vem para ficar. Outros vem para nos ensinar a soltar com respeito.
E há sonhos que não querem confundir. Querem apenas alinhar a alma.
Esse sonho foi assim.
Com amor,
clari 💫



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